Nenhum dos dois se deu ao trabalho de cumprimentar o outro. Charlie passou direto por ele, desabotoando seu sobretudo enquanto caminhava na direção do closet. Tirou-o quando lá chegou e pendurou-o num cabide. Tinha duas pistolas em coldres nos ombros e a varinha num na coxa. Saiu do closet desabotoando as mangas da camisa, parou em frente a sua mesinha de cabeceira e tirou a varinha do coldre, deixando-a pousada ali. Então voltou na direção do closet, mas não entrou, pendurou o coldre vazio da varinha num cabide em forma de gancho na porta e o coldre com as pistolas, para só então entrar no armário e começar a desabotoar sua camisa.
Ian não a olhava, nem ela para ele, por isso Charlotte não viu que ele já estava completamente nu, deitado na cama, os braços atrás da cabeça, as pernas cruzadas, olhando um ponto qualquer no teto.
A mulher despiu-se e saiu em direção ao banheiro, usando apenas calcinha e sutiã de renda preta. Prendia o cabelo longo no caminho, com um pausinho de madeira.
Quando saiu do banheiro vários minutos depois, já de banho tomado e vestindo uma longa camisola preta, Charlie se encaminhou parta a cama, dando uma olhada de relance no marido, sem fazer comentários sobre ele estar nu. Ian sabia que ela detestava quando ele dormia nu. É desconfortável, Charlie, ela lembrava de tê-lo ouvido dizer várias e várias vezes. É uma mania nojenta, ela rebatera muitas das vezes, E além do mais, você disse que tinha se acostumado. Ele sempre a olhava com cara de bunda nessa parte. Nem por isso acho que dormir com uma cueca é mais confortável que dormir sem nada, ela, geralmente, parava a discussão por ai.
- Como foi seu dia? - Ian tentou, sem desviar os olhos do teto, ainda na mesma posição.
Charlie soltou uma risadinha, estranhando a pergunta, já que não conversavam direito havia muito tempo.
- Como sempre. - limitou-se a responder, enquanto voltava para a penteadera e começava a escovar os cabelos.
Ian olhou na direção dela agora, observando suas costas. O assunto parecia ter acabado.
- Por que você sempre faz isso?
Ela não parou os movimentos lentos com a escova.
- Isso o que?
- Esse deboche irritante. Só perguntei como foi seu dia! - parecia irritado.
- Você nunca pergunta como foi meu dia, McLeod.
- Ok. Mas perguntei hoje. Custa responder direito? Sem deboche, sem ironia? Que bosta, Charlie!
Ela suspirou e parou de escovar o cabelo, jogando a escova sem cuidado algum sobre a penteadeira.
- Não me estressa, Ian.
- É só o que eu faço, não é? Estressar você.
- Merlin! - ela resmungou, puxando o lençol da cama, querendo que Ian saísse de cima dele, mas ele não parecia se importar.
- Quer, por favor, sair de cima de cima do lençol?
Ele ignorou, olhando o teto, o rosto vermelho.
- Ian, quer tirar sua bunda de cima do lençol? - ela falou mais pausadamente, porém mais alto e mais irritada também.
McLeod arqueou o corpo e tirou o lençol debaixo dele irritado, jogando-o na direção da esposa.
Charlie respirou fundo, querendo manter a calma. Deitou na cama sem cuidado ou paciencia, de costas para ele, cobrindo-se com o lençol. Por fim, pegou a varinha na mesinha e apagou as luzes com um pequeno aceno. Colocou a varinha debaixo do travesseiro e se ajeitou no colchão, bufando de irritação e frustração.
Alguns minutos passaram, Charlie não via a hora de conseguir dormir, mas sua cabeça estava num turbilhão ainda. Ela ouviu o marido suspirar e sentiu-o mexer-se na cama, até que a mão dele tocou sua cintura. Ele acariciou levemente a área e deu um beijo em seu ombro. Charlie não se mexeu.
- O que está acontecendo com nós, Charlie? - ele sussurrou, calmo.
Ela abriu os olhos, que mantinha apertados, devagar. Fitou a penumbra a sua frente e não soube o que responder.
Ian subiu a mão muito lentamente em direção ao seio dela, mas Charlie segurou sua mão e a afastou, sem dizer nada.
Ian bufou e se levantou.
- O que há? - ele berrou, voltando a ficar irritado. - Nós parecemos dois estranhos morando sob o mesmo teto!
Charlie se controlou para ficar em silêncio.
- Será que você pode falar comigo, Charlotte?
Ele nunca a chamava de Charlotte. Talvez ela pudesse contar nos dedos quantas vezes ele a chamou pelo nome inteiro, nem no próprio casamento ele a chamara pelo nome. Era apenas Charlie.
- Ian, eu tive um dia cansativo, ok? - ela se virou para ele por um instante apenas. - Estou cansada. Amanhã discutimos a relação.
Ele soltou uma risada incrédula e acendou todas as luzes do quarto.
- Não. Vamos conversar agora. - ele parecia tão decidido que ela não teve como discutir. Com um suspiro, ela sentou na cama e o encarou.
- Ok, querido... - o tom era sarcástico. -... fale.
Ian revirou os olhos e sentou na cama, a frente dela. Coçou a cabeça, olhando para baixo, então levantou o rosto e encarou-a.
- Como chegamos a esse ponto?
- Não sei. - seca.
- Eu não quero viver assim até o último dia da minha vida, ok? Até pq acho que não conseguiria viver muito mais nessas condições.
Charlie não respondeu agora, engoliu em seco, desviando seu olhar do dele.
- Eu não sei o que fazer. - ela admitiu a muito custo.
- Eu também não.
Charlie olhou para o homem com quem era casada há pouco mais de dois anos e não pôde deixar de lembrar de todos os momentos bons e ruins que passaram juntos.
- Acho que... - ela parou antes de completar. Não tinha pensado em falar, mas a boca agiu antes que ela pudesse impedir.
Ian esperou um pouco, mas ao perceber que ela não continuaria, encorajou-a.
- Acha...?
Ela o olhou por um momento, pensando se era mesmo o certo a se dizer naquele momento.
- Acho que deveríamos dar um tempo. Sabe? Nos afastar, pensar, etc e tal. - ela não conseguia olhá-lo quando terminou.
Ian demorou a responder, mas Charlie não levantou a cabeça para conferir sua expressão.
- Se você parasse de trabalhar...
- Eu não vou parar de trabalhar, Ian. - ela finalmente ergueu a cabeça. Já tinham tido aquela discussão antes. O rosto dele era indescritível, mas parecia tranquilo.
- Ok. Se você não está disposta a fazer um sacrifício pelo nosso casamento, eu aceito seu tempo...
Ela respirou fundo, pronta para rebater, mas Ian continuou ao perceber que uma nova discussão surgiria.
- Vamos dar um tempo, é isso. Talvez seja nossa solução, certo? Vou pedir outro quarto na recepção. - ele se levantou, indo até a poltrona onde havia jogado suas roupas e começou a se vestir.
Charlie não conseguiu dizer nada, apenas o acompanhou com os olhos.
Ao terminar de se vestir, Ian se aproximou dela e deu um beijo demorado em sua testa. Ela fechou os olhos com o movimento dele.
- Sinto que tudo tenha chegado a esse ponto.
- Eu também. - ela respondeu sinceramente.
Ele a observou por um momento, então virou e saiu do quarto.
Charlie olhou para o vazio da cama ao seu lado e sentiu algo estranho. Uma mistura de tristeza, solidão, vazio e leveza. Sim, sentia-se leve. O sentimento de culpa que a consumia há alguns dias, estranhamente, desapareceu no momento em que Ian saiu pela porta do quarto.
Ela deitou e se aconchegou nos lençóis. Passaria boa parte da noite em claro, ela sabia, e só conseguiria relaxar algumas horas antes do amanhecer.
Três dias depois, eles se encontrariam no Clouds Mud Cafe e decidiriam assinar os papéis do divórcio.
Era uma manhã ensolarada e as copas das árvores formavam sombras no caminho entre os túmulos desorganizados do cemitério da cidade.
Peter, irmão de Charlie, vinha ao seu lado, as mãos juntas atrás do corpo. O andar solene, o ar sério de sempre.
Charlie passou os olhos pelas pessoas que estavam ali. A grande maioria era agente. Miss Johnson ia de mãos dadas a Lynn, filha de Guinevere, logo atrás do caixão. A menina olhava o chão, dando passos grandes para conseguir acompanhar a senhora. Usava um vestido preto com bolsos grandes na parte da frente, meia-calça e sapatos lustrosos da mesma cor. Uma fita vermelha com um laço na cabeça. Era uma graça, Charlie percebeu, mesmo com o olhar triste.
Eve andava um pouco atrás de Charlie, mãos dadas a Jonathan, o novo namorado que Charlie ainda não tivera oportunidade de conhecer direito.
A procissão parou e o caixão foi levado até uma abertura no chão. Todos estavam em silêncio. E o silêncio perdurou mesmo enquanto o caixão era baixado. Ninguém se atrevia a falar nada. Miss Johnson chorava em silêncio e Lynn olhava para o buraco parecendo não compreender bem o que se passava.
Ao longe, uma mulher de longos cabelos negros observava enquanto o caixão era baixado. Emma não seria reconhecida por ninguém ali, escondida por grandes óculos de sol tão negros quanto suas roupas, entre as sombras de uma árvore. Passou os olhos pelos presentes e debochou internamente. Ninguém ali conhecia Guinevere, ninguém ali sentiria sua falta, com excessão da menina com a fita vermelha na cabeça, talvez. Sem mais nada para ver, uma vez que o caixão já havia sumido sob a terra, Emma virou, caminhando para longe daquelas pessoas.
Charlie pareceu ser a única a perceber o vulto sumindo entre as árvores, mas não deu nenhuma importância a ele. Observou Louise, Eve, Suzanne e tantos outros rostos conhecidos por um breve momento, sem conseguir não se perguntar se poderia ter feito algo diferente para salvar Gwen.
O coveiro pegou uma pá e começou a jogar terra por cima do caixão. Lynn continuava olhando para o buraco, hipnotizada. Miss Johnson se ajoelhou e lhe entregou uma rosa vermelha, cochichando algo em seu ouvido. A menina sorriu muito leve e pegou a flor. Agora todos acompanhavam os passos da pequena. Ela foi até a beira do buraco, ainda segurando a mão da babá, flexionou um pouco as pernas e jogou a rosa. A flor pousou sobre a tampa do caixão. Miss Johnson puxou a menina para seu colo, enquanto o coveiro voltava a jogar a terra.
Charlie desviou o olhar e sentiu Peter segurar sua mão, firme, mas delicadamente. Olhou-o e sorriu levemente, recebendo em troca um sorriso de consolo. A mulher ainda se surpreendia com o fato de ser tão fácil de ser lida por quem a conhecia bem.
O silêncio ainda imperava quando o coveiro terminou de jogar a terra e limpou a testa com as costas da mão. Algumas pessoas se viraram e começaram a ir embora. Miss Johnson fez o mesmo e Charlie a seguiu com os olhos, pensando na menina, que tinha a cabeça deitada no ombro da babá e o olhar perdido entre as pessoas estranhas.
Eve acenou discretamente para Charlie, de longe, saindo abraçada a cintura de Jonathan.
- Vamos? - a voz grave de Peter despertou Charlie.
- Claro. - ela respondeu somente, indo na direção oposta a de Miss Johnson e a maioria das pessoas.
- Tudo bem? - o irmão perguntou depois de algum tempo
- Uhum. - ela sonorizou, olhando para o chão.
Andaram em silêncio, de mãos dadas, até sairem na rua.
- O que houve?
Charlie levantou a cabeça, franzindo o cenho.
- Como assim?
Ele sorriu de canto.
- Você está diferente hoje.
Ela arqueou a sobrancelha.
- Não sei do que está falando.
- A menina vai ter de sair da cidade ou a velha vai cuidar dela? - ele pareceu ter mudado de assunto.
- Não sei. - Charlie deu de ombros, fingindo não se importar.
- Por que não cuida dela?
Charlie riu, a voz meio esganiçada.
- Ficou maluco?
- Não. - sério.
- Ham! Pare com esse papo, Peter. Preciso trabalhar...
- Você deveria ter uma folga, sabia?
- Tecnicamente eu estou de folga até depois de amanhã. - ela parou de andar e deu um beijo no rosto dele.
- Por que não descansa? Como você aguenta? Como seu marido aguenta?
- Cala a boca, Pete. Vai cuidar da sua vida. - ela sorria, o que o fez sorrir também, acostumado a brincadeiras assim.
- Sério, Bella...
- Beijo, Pete. - ela soltou a mão dele, enfiando-as nos bolsos do sobretudo do uniforme da Agência e caminhando de costas para o irmão.
- Você sabia que vai ficar uma velha muito chata, não sabia?
Ela riu, dando uma olhada para trás e balançando a cabeça positivamente.
- Eu vou mandar você para um asilo! Nem pense que vou ficar aturando sua chatice. - ele falava mais alto.
- Ta bom, Peter Delattre! - sem parar de andar.
Ela ainda o ouviu bufar, antes de escutar seus passos andando na direção oposta a que ela ia.
O sorriso de Charlie sumiu quando teve certeza que ele não estava mais perto, então mudou seu rumo. Virou numa rua e foi em direção a floresta. Precisava ficar sozinha naquele momento e pensar.
Bella entrou no Maison Te seguindo Eric. Ele passou direto pelas mesas e foi em direção as salas reservadas. Bella o seguia a contra-gosto, haviam tido uma pequena discussão dias antes, quando ele defendeu Edward num desentendimento entre o primo e ela no Pub.
O garoto abriu uma das portas e entrou. Bella entrou atrás e ele fechou a porta. Em seguida ele caminhou até a mesa e sentou, olhando-a. Bella retirou o sobretudo e permaneceu em pé.
- Então? Seja rápido. Não tenho tempo a desperdiçar. - falou seca.
Eric abaixou a cabeça.
- Me desculpe.
- Não precisa se desculpar. Estupidez é de família. Não poderia esperar outra coisa de você além de uma cena ridícula daquelas.
- Bella. Por favor. Foi um mal entendido. Me desculpe.
- Tudo bem. Mais alguma coisa? Tenho tarefa pra terminar.
- Não vai se sentar?
- Falei que estou com pressa..
- Não está não! Você está me evitando!
- Por que será? - irônica.
Eric suspirou e se levantou. Caminhou calmamente até ela e segurou suas mãos. Olhou-a nos olhos.
- Eu te amo.
Bella franziu a testa e se afastou dois passos, soltando suas mãos das dele.
- Por que está fazendo isso?
- Isso o que? - espantado.
- Você não deveria brincar com as pessoas desse jeito, sabia?
- Não estou brincando.
- Pára! - berrou e bufou, dando às costas a ele e indo em direção a porta. Abriu-a, pronta para sair, mas Eric correu até lá e prendeu a porta com a mão.
- Não vá. Vamos conversar...
- Não tenho nada pra conversar com você!
Eles se encararam por algum tempo e então Eric soltou a porta.
- Ok. Pode ir.
Bella continuou parada, olhando para ele.
- Por que você é tão.. estúpido? - em tom desesperado, batendo o pé no chão.
Eric apenas fitou-a, em silêncio.
Bella fechou a cara e empurrou a porta com violência, fazendo-a bater e fechar. Então foi na direção dele e, pendurando-se em seu pescoço, beijou-o.
Eric estranhou a princípio, mas logo a abraçou pela cintura e correspondeu ao beijo.
Segundos depois ela separou os lábios e abaixou a cabeça.
- Desculpe. Não deveria ter feito isso.
Eric franziu o cenho, olhando-a.
- Então... então eu vou descontar. - e se aproximou dela novamente, beijando-a. Foi empurrando-a para dentro da sala. Quando chegaram na mesa, Eric passou o braço e derrubou tudo que havia sobre ela no chão. Deitou Bella ali e deitou sobre ela. Beijavam-se vorazmente, as mãos dele dançando pelo corpo dela.
De repente Bella empurrou o peito de Eric, fazendo os rostos se afastarem. Respirou fundo, olhando-o nos olhos.
- É verdade? - levemente ofegante. - Sobre... me amar?
Ele sorriu e levou a mão ao bolso. Tirou a varinha e apontou para ela. Bella apenas observou.
- No meu lugar, Edward teria aproveitado para te matar, mas eu prefiro outra coisa... - apontou a varinha para a mesa, ao lado da cabeça de Bella e fez aparecer uma caixinha. Pegou-a, abriu e mostrou para ela. - Quer casar comigo, Belladonna Delattre?
Bella arregalou os olhos, vendo o anel dentro da caixinha.
- O--o que? - gaguejou, o coração acelerado.
Eric corou, pela primeira vez desde que se conheceram.
- Quer se casar comigo?
Bella continuou olhando-o, os olhos esbugalhados, sem ação.
- Co--como assim? Mas... nós.. casar? - fechou os olhos. - Posso pensar? - falou por fim, após vários segundos.
- Claro! - ele sorria sutilmente e saiu de cima dela, a ajudando a levantar da mesa. - Estou indo viajar hoje, passar o natal com a minha família. Será que... quando eu voltar você já terá uma resposta?
Bella mordeu o lábio, nervosa.
- Sim. Sim.
Ele sorriu um pouco mais largamente e deu um selinho demorado nela. Em seguida, sem mais nenhuma palavra, aparatou.
- Merlim! - resmungou ela, sorrindo bobamente. Olhou em volta e pegou o sobretudo, automaticamente. Vestiu-o e saiu pela porta, com os pensamentos a mil.
Saiu de dentro da lareira da estação Flu de Ruvkegilli. Não reconheceu nenhum dos atendentes. Seguiu decidida até as ruas e tomou um susto ao ver como a pequena vila tinha crescido e mudado. Caminhou quase distraidamente pelas ruas de pedra. Passou em frente ao Pub e ao Maison Te, mas não entrou nem em um, nem em outro. Os estabelecimentos não tinham mudado muito. Continuou andando calmamente até que chegou aos portões de Noskort. Alguns guardas armados a barraram.
- Não pode entrar aqui, senhorita.
Ela os mediu.
- Ichirou Miyauachi está me esperando.
Os guardas trocaram um olhar.
- Como se chama?
- Flynn. Charlotte Flynn.
- Só um segundo. – um deles disse, saindo de perto dela. Charlie desviou o olhar, sem respondê-los, mas notou quando uma pequena orbe acendeu ao lado do guarda que se afastou. Trocaram algumas palavras e em seguida o homem se aproximou, seguido pela orbe.
- Pode entrar senhorita. – falou, abrindo o portão negro.
Ela entrou e observou o caminho que levava a antiga fraternidade Sphinx.
- Por favor, siga-me. – falou um dos guardas, saindo em direção ao prédio principal. Charlie o seguiu de perto, sem querer parecer muito nostálgica.
Ao chegarem ao Hall, o guarda apontou as escadas.
- O escritório do coronel Miyauachi fica logo no primeiro andar, à direta. Há uma placa na porta, você não irá se perder.
- Obrigada. – agradeceu ela, subindo os degraus rapidamente. Virou o corredor e seguiu até encontrar a porta com a plaqueta. “Escritório do Coronel Miyauachi”. Charlie respirou fundo e bateu. O japonês abriu a porta com um largo sorriso.
- Senhorita Flynn! Seja muito bem vinda!
Charlie sorriu tão levemente, que foi quase impossível notar o sorriso. Entrou depois que Ichirou deu espaço para que ela passasse.
- Como foram os treinos? – perguntou ele, fechando a porta e indo sentar em sua cadeira, atrás da mesa.
- Bons. – limitou-se a mulher, sentando na cadeira que fora indicada pelo coronel.
- Que bom. – sorriu. – Espero que goste da Agência.
Charlie tentou não parecer incomodada com as lembranças que insistiam em pipocar em sua mente.
- Vamos ver...
Ele sorriu e fez um aceno com a varinha. Algumas pastas voaram na direção dele. Ichirou abriu uma delas e a leu, durante alguns segundos.
- Seu instrutor adorou seus treinos. – falou, sem parecer surpreso.
Charlotte ergueu os ombros, sem falar nada.
Ichirou a estudou por um momento.
- Terá uma semana para tentar se adaptar a rotina de Noskort. Depois disso, verei em qual patente se encaixará... por enquanto será um sargento.
Charlie assentiu.
- Mais alguma coisa?
- Sim. Ao se referir a mim é como “coronel Miyauachi” ou “senhor”...
- Certo.
- Minako Kamiya é a major da Bombarda.
Charlie sorriu de leve.
- Deve referir-se a ela como “Major Kamiya” ou apenas major.
- Sim.
- Sim, senhor. – corrigiu ele.
- Sim... senhor. – consertou ela, respeitosamente.
Ichirou sorriu.
- Acho que por hora, é apenas isso... sargento Flynn.
A mulher sorriu e se levantou.
- Quarto...?
- Temos três alojamentos: Sphinx, Centaur e Agouro. Acho que já ouviu falar, estou certo?
- Sim. Mandaram-me algo com algumas regras, curiosidades e... enfim, coisas que eu deveria saber.
- Ótimo. Então já deve ter escolhido seu alojamento...?!
- Sim. Agouro. Me pareceu mais... minha cara. - sorriu de canto.
Ichirou continuava sorrindo.
- Vou pedir que alguém lhe mostre onde a Agouro fica. – foi saindo de trás da mesa e a guiando até a porta. – Qualquer coisa, é só me avisar.
- Obrigada, senhor. – chegou a porta, esperou que ele abrisse e saiu. Virou-se e prestou continência.
Ichirou sorriu, parecendo orgulhoso.
- Descansar, sargento.
Charlie manteve a expressão calma e serena e saiu caminhando em direção as escadas.
Um guarda a esperava na porta do Hall.
- Por aqui, sargento.
Charlie franziu o cenho, mas o seguiu.
Eles atravessaram a agência e chegaram ao casarão do Agouro. O guarda não disse nada, apenas se retirou.
Charlotte entrou no hall do alojamento e sentiu um arrepio... realmente tinha feito a escolha certa. Subiu as escadas e entrou no quarto. Observou-o por um momento e depois caminhou até a janela.
- Noskort... estou de volta. – falou meio que para si mesma, e foi desfazer a malas.
Já tinha procurado saber de Louise e Eric, apenas. Não queria saber de nada mais que lembrasse Noskort.
A Bloody Bats havia sido desmontada. Assim que cumpriu seu objetivo, ela foi até a polícia bruxa americana e os entregou, não antes de mandar uma coruja a Adrian, pedindo que ele saísse de lá. Adrian não era mau, não era um criminoso... como ela. Charlie sentia vontade de se entregar, de gritar aos quatro ventos que era uma criminosa. Sentia-se nojenta, mas não se arrependia. Em pouco tempo poderia voltar para sua casa, quem sabe até para seus amigos. Voltar a usar o nome que seu pai escolheu para ela. Tinha vingado sua memória e, apesar de tudo, sentia-se bem.
O futuro era um borrão. Não tinha mais objetivos, mas não ligava. Queria apenas voltar para sua casa e dormir, mas antes teria que deixar a poeira baixar. Iria para Londres, esperaria um pouco até que o corpo de Dylan estivesse frio e então voltaria para seu avô e seu irmão. Eles ficariam surpresos e ela adorava ficar imaginando suas reações. Às vezes sentia medo, mas olhava as poucas fotos que trazia com ela e quase morria de vontade de abraçá-los.
Nesse momento ouviu alguém bater na porta e foi atender, sempre desconfiada, carregava a varinha firmemente.
Abriu apenas uma fresta e demorou a reconhecer os olhos puxados do outro.
- Ichirou? – perguntou espantada.
Ele sorriu e cumprimentou-a.
Charlie estava chocada, mas abriu a porta e deixou que ele entrasse.
Serviu um chá a ele e deixou que ele falasse. Ichirou a convidava para entrar para a Agência Noskort. Ela relutou. Realmente não queria voltar para lá, mas algo dentro dela sempre pensava no lugar que foi seu maior aprendizado e sua maior decepção.
Ela pediu desculpas, mas negou o convite. Ichirou falou que jamais a obrigaria a qualquer coisa, mas que adoraria vê-la como integrante da Bombarda. Charlotte se interessou, apesar de ainda afirmar que não iria, e pediu que ele explicasse melhor do que se tratava a tal agência. Já tinha ouvido falar algumas vezes sobre ela, mas nunca deu muita importância. Achava que eram apenas boatos. Ao final, Charlie disse que ia pensar sobre o assunto e Ichirou foi embora.
No dia seguinte ele receberia uma coruja, confirmando a volta dela à Noskort. Teria que passar por um treinamento de três meses, mas não via problemas.
Nos últimos meses havia aprendido a atirar com armas de fogo e facas, a dirigir automóveis e a pilotar motos. Teve que fazer pequenos ou grandes serviços para Dylan, desde entregar algo a alguém, até matar. Muitas vezes apenas para se defender e não ser morta, mas sentia-se tão mal quando fazia isso, que foram inúmeras as vezes que pensou em desistir.
Levou a taça de vinho aos lábios carnudos e notou, com certo prazer, que Dylan acompanhava cada movimento seu.
Ele lembrava alguém. Seu rosto era forte, o queixo quadrado, másculo. Não conseguia saber quem ele lembrava... talvez ninguém, pensou. O rosto dele era bem familiar a ela desde os sete anos.
Pousou a taça na mesa de vidro, no centro e sorriu daquela forma que, ela já tinha notado, excitava Dylan. Ele sorriu de volta, parecendo um caçador, mirando sua presa. Sem dizer nada, ele apontou com a mão que segurava a taça, o lugar ao seu lado. Charlie ponderou, propositalmente, por certo tempo e então descruzou as pernas graciosamente. Levantou e seguiu até o lugar indicado, sentando-se com o corpo virado na direção do homem de olhos verdes. Ah, aqueles olhos! Já tivera tantos pesadelos com eles...
Por um momento pensou em Eric, mas logo afastou as lembranças. Eric está morto, era o que pensava todas as vezes em que a imagem dos olhos azuis dele surgiam em sua memória. Pensou em Adrian e a decepção que ele sentiria quando soubesse, mas afastou esse pensamento também.
Dylan esticou o braço e tocou a mão gelada no joelho descoberto dela. Charlie mordeu o lábio, provocante. O homem deixou que a taça, na outra mão, deslizasse, caindo no tapete de pele de urso no chão e puxou a nuca da mulher vorazmente. Os lábios se tocaram, quentes. Ela sentiu o nojo já conhecido, que a fez quase vomitar, mas repassou tudo o que havia acontecido com ela até hoje, até esse momento, e correspondeu ao beijo, colocando sua mão na parte interna da coxa dele. Só mais alguns instantes, pensou, e tudo estará acabado.
O homem subiu a mão do joelho, para baixo da saia de couro dela. Charlie estremeceu.
- Brenda... – sussurrou ele. –... você me enlouquece!
Ela sorriu, os lábios ainda juntos.
- Não era essa a minha intenção...
Dylan apertou a mão sob a saia e ela ofegou.
- E qual era a sua intenção? – perguntou marotamente, voltando a beijá-la.
Charlie esperou um momento, até ter certeza de que aquela era realmente a hora certa. Quando respondeu, tinha o tom provocante ainda na voz.
- Matá-lo!
Dylan parou os movimentos que fazia com a mão. Os lábios também ficaram imóveis. Os olhos a fitavam de perto, num misto de incredulidade, medo, raiva e desejo.
- Ah, é? – perguntou, afastando os lábios dos dela.
- Aham... – respondeu, voltando a morder o próprio lábio e passando o indicador pelo tórax dele. – Você acha que eu conseguiria? – subindo o dedo até tocar a boca dele, delicadamente, o olhando nos olhos.
Dylan sorriu.
- Tenho certeza que se quisesse, conseguiria... – reaproximando seus lábios dos dela. – Menos conversa e mais ação, Brenda.
- Charlotte. – disse ela, entre o beijo.
Ele enrijeceu e a encarou. Os lábios carnudos dela deram lugar a lábios finos e delicados. Os cabelos negros e longos foram substituídos por fios curtos e loiros, brilhantes. Os olhos, outrora escuros como o ébano, deram lugar a profundos e misteriosos azuis faiscantes.
- Olá! – disse ela, sorrindo, com a adaga dada por Eve há tantos anos, encostada no pescoço dele.
Dylan procurou pela varinha, mas Charlie tinha sido mais rápida e a tirado dele sem que o excitado homem percebesse. A jogou para trás.
- Vamos ser justos... desta vez... – piscou ela, com o sorriso provocativo ainda no rosto.
O homem não conseguiu se mover, não acreditando no que via.
- Co-como você entrou...?
- Você me deixou entrar! Não lembra? – interrompeu ela, com a cara de óbvio.
Dylan cerrou os olhos.
- Era para você estar morta! – recuperando o tom autoritário de sempre.
Ela voltou a sorrir.
- Tem razão! – ficou séria. - Vamos inverter os papéis, então. - e apertou a adaga contra o pescoço dele, a puxando para o lado, com força. Um jorro de sangue acertou o rosto de Charlie e Dylan caiu no chão, agonizante.
A mulher se levantou, pegando o lenço do bolso dele e limpando o sangue do rosto.
- Pronto. – disse ela, ao vê-lo parar de se mexer.
Jogou o lenço sobre o cadáver e ajeitou a roupa, transformando-se em Brenda de novo.
Caminhou até o espelho na entrada do cômodo e conferiu a imagem. Tudo nos conformes. Abriu a porta e saiu, caminhando imponente, como sempre, mas com um ar mais leve, apesar do nervosismo de sair depressa, antes que alguém descobrisse o corpo do desgraçado.
- Hey! – uma voz grave foi ouvida atrás dela e Charlie enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, segurando a varinha firmemente. Coração acelerado.
Pensou em fingir que não tinha ouvido, mas isso poderia levantar suspeitas. Virou-se lentamente, vendo Nicholas correndo até ela.
- O que foi agora, grandão? – tentando agir como sempre, indiferente a tudo e a todos.
- Pensei que fosse dormir com Dylan hoje...
Ela sentiu o lábio tremelicar e disfarçou sorrindo.
- Ah! Ele está com mais uma das suas intermináveis enxaquecas. – revirou os olhos. – Pediu para não ser incomodado.
Nicholas franziu a testa, desconfiado.
- Mas ele estava bem quando pediu para lhe chamar...
- Pois é! Mas quem sabe quando a dor vai voltar, não é mesmo? – suspirou entediada. – Posso ir Nick? Ou vai ficar enchendo meu saco o resto da porcaria da noite? – extremamente grossa.
O grandalhão fez um gesto com a cabeça, entendendo.
- Ok! Falarei para pararem a algazarra lá embaixo então. Ele fica nervoso demais quando está com enxaqueca. Vou mandar a cozinheira preparar uma poção e levar para ele.
Charlie mordeu o lábio.
- Eu já pedi, não se preocupe... só mande que o pessoal desligue a música lá embaixo e que, pelo amor de Merlim todo poderoso, não atrapalhem o precioso sono de Dylan... entendeu?
Nicholas assentiu e ela fez um gesto com a mão, como se não ligasse. Deu as costas ao “segurança particular” de Dylan, sabendo ser a última vez que o veria, voltando a caminhar altiva.
Ao sair na rua, sentiu o vento gelado bater e os cabelos negros voarem. Sorriu, como há tempos não sorria. Entrou em um beco escuro e Brenda se foi para sempre. Em seguida, aparatou.
Alguns garotos brincavam, tentando acertar feitiços nos outros enquanto corriam, extremamente bêbados.
Batidas na porta foram ouvidas e ela franziu o cenho.
Caminhou até lá e abriu apenas uma fresta.
- Oi. – falou ele, sorridente.
Brenda sorriu também, mas ele percebeu que algo não estava certo.
- Entre, Adrian. – falou ela, se afastando da porta, como há algumas noites vinha acontecendo.
Ele fechou a porta e observou enquanto ela voltava para a janela.
- Algum problema?
- Nada. – mentiu ela, ainda de costas para ele.
- É claro que aconteceu alguma coisa, senão você não estaria desse jeito.
Ela girou, encostando-se à parede, enquanto o observava. Respirou fundo antes de falar.
- Não é nada. Sério. – e sorriu, tentando demonstrar tranqüilidade.
Ele não parecia convencido, mas ficou em silêncio, estudando-a. Por fim se aproximou dela e colocou a mão em sua nuca.
- Dylan fez alguma coisa com você?
Ela estranhou a pergunta.
- Não! Que tipo de coisa você acha que ele poderia querer fazer comigo?
- Dylan é possessivo e... obsessivo. Se ele estiver tão interessado em você quanto demonstra, fará de tudo para te ter com ele. E se você não quiser, não será um empecilho. – querendo que ela entendesse, sem precisar falar mais abertamente que ele poderia estuprá-la.
Brenda balançou a cabeça em negativo e sorriu, passando a mão delicadamente no rosto do outro.
- Não se preocupe comigo.
- É claro que me preocupo! – falou Adrian rapidamente, se arrependendo no segundo seguinte. – Quer dizer... ele acha que pode conseguir tudo que quiser. Ele só não conseguiu uma coisa até hoje.
- É? O que?
- Uma garota.
- Jura? Quem?
Por um momento, Charlie pensou que ouviria seu nome, mas ele apenas a olhou, fundo nos olhos e depois desviou para a janela.
- Não sei. – respondeu ele mentindo, ela sabia. Toda vez que desviava seu olhar, era mentira.
Ela resolveu não perguntar mais nada.
Adrian voltou os olhos a ela e começou um cafuné tímido em sua cabeça. Em seguida ele apenas se aproximou mais, até que os corpos ficassem juntos e apoiou a cabeça dela em seu ombro.
- Se ele fizer algo que você não queira, me avise... que eu o mato.
Charlie estremeceu ligeiramente, sem responder, juntando as mãos atrás das costas dele.
Não sabia por que, mas gostava de Adrian, por mais que não quisesse. Ele era diferente do irmão, na verdade era diferente de todos os membros da BB. Parecia estar ali por obrigação. E também era diferente de qualquer outro homem que ela já tinha conhecido. Não era tímido como Christopher, não era desligado como Richard nem ousado como Adam. Não era romântico como Kraven nem confuso como Eric, muito menos atencioso e observador como Isao. Ele tinha um jeito único, uma forma de tocá-la, uma forma de falar com ela que... ela não sabia explicar! Ele parecia ser uma mistura de todas as virtudes que ela encontrava nos homens que já tinha amado.
Às vezes, pensava que Adrian gostava do jeito dela, mas assim que ela ouvia um “você é linda” ou um “você é perfeita”, elogios que deixariam qualquer mulher pulando de alegria, essa idéia se afastava e dava lugar à mentira que ela tinha criado. Ele estava apaixonado pela Brenda. Ele estava apaixonado por uma mulher que ela tinha inventado, por uma mulher completamente diferente do que ela, Charlie, era.
Charlotte suspirou ao se lembrar disso e fechou os olhos, sentindo o corpo quente dele.
- Desculpe. – falou ela, de repente.
Ele, logicamente, não entendeu, mas não moveu um músculo, ainda fazendo cafuné na cabeça dela.
- Desculpar o que?
Ela não poderia falar que o estava enganando. Jamais. Então levantou a cabeça do ombro dele e sorriu, abraçando-o pela nuca.
- Eu deveria te afastar de mim, mas não consigo. – confessou, achando que aquilo era um erro, mas sem ligar a mínima.
Adrian sorriu também.
- Não vou perguntar por que... te conheço o bastante pra saber que você vai desviar, esquivar, fugir do assunto e vai me fazer esquecer qual foi a pergunta antes que eu perceba que você não respondeu o que eu queria saber.
Ela riu com a confusão dele.
- É. – e tocou seus lábios aos dele, num beijo tranqüilo e doce que acabou se tornando quente e voraz. Adrian andou com Brenda até a cama e a deitou lentamente no colchão macio. Ela enfiou a mão em meio ao cabelo dele e sabia que, pelo menos por algumas horas, estaria livre de qualquer problema.
- Você vai se divertir, Brenda! – riu o mais novo, saltitante.
- Imagino! – respondeu ela, sorrindo de canto. Parecia animada, mas por dentro tentava loucamente achar uma saída.
Nicholas gritou com Sam, "O Saltitante", e depois se virou à novata.
- Um passo em falso e eu te mando para o inferno!
Ela sorriu.
- Fique tranqüilo, grandão! Você não me conhece! - soltou uma piscadela e esperou que a gigantesca porta do galpão abrisse. Quando isso aconteceu, Brenda entrou a passos decididos no lugar enorme, que ecoava o barulho dos saltos finos de sua bota de couro quase tão negro quanto seus cabelos. Os lábios grandes tremiam debilmente e ela os apertava para disfarçar. Não precisou caminhar muito para que seus olhos escuros captassem um homem, amarrado em uma cadeira, quase no centro do abrigo.
Ele parecia ter apanhado. Sua cabeça pendia para frente, mole, tão ensangüentada que os pingos do líquido vermelho e gosmento estavam por toda a calça branca dele e no chão.
- É ele? – perguntou a mulher, apontando o homem na cadeira.
- É. – respondeu Nicholas, se aproximando. – Não será difícil. – sorridente.
- Difícil? Será... ridículo! O cara já está quase morrendo! – falou como se estivesse ofendida.
Os três homens trocaram olhares. Nicholas se aproximou da garota e parou a um palmo de distância de seu nariz.
- Para começar, está ótimo!
- Começar? – perguntou ela. – Vocês acreditam mesmo que eu nunca fiz isso antes?
- Imagina, senhorita! Acreditamos na sua palavra! – respondeu o grandão, sarcástico.
Uma fúria gritante passou pelos olhos de Brenda. Odiava ser testada! Então lembrou o verdadeiro motivo para estar ali.
- Você é patético... todos vocês são! – lançou um olhar aos outros e desviou do corpo enorme de Nicholas, seguindo a passos firmes até o homem na cadeira. Posicionou-se atrás do mesmo e observou a cabeça pendente por um segundo. Lembrou-se das técnicas que Adrain havia lhe ensinado e, depois de pouco tempo, a segurou e girou com força. O som de ossos se partindo pode ser ouvido. O homem estava morto.
Brenda olhou Nicholas e sorriu forçado, notando que o sangue do rosto do rapaz tinha ficado em suas mãos, que ela tentava com todas as forças que não parecessem trêmulas.
- Poderiam me arranjar um lenço? – falou num tom entediado, mostrando as mãos.
Os três homens estavam estáticos.
- Garota! Você me surpreende! – vibrou Sam, saltitando até ela.
Brenda fez cara de tédio.
- Preciso de um lenço... – repetiu, balançando as mãos.
O homem que até então não havia dito uma só palavra, tirou um lenço vermelho do bolso do terno de risca de giz, e caminhou calmamente até a mulher. Estendeu-lhe o lenço preso entre o indicador e o dedo médio e tinha um sorriso nascendo no canto dos lábios. Ela, por sua vez, permaneceu séria. Pegou o lenço das mãos dele e começou a limpar as mãos tranquilamente. O homem apenas deu as costas a Charlie, caminhando em direção a saída. Ao passar por Nicholas, assentiu com a cabeça e o grandalhão sorriu.
A porta do galpão se abriu e Dylan saiu. Nicholas parecia feliz.
- Parabéns, Brenda! Você acabou de ser promovida!
Ela sorriu, ainda limpando as mãos. Aparentava um orgulho silencioso, mas por dentro se sentia nojenta.
Alguém bateu na porta e Charlie deu um pulo.
- Já vai. – berrou, colocando a blusa de qualquer jeito. Correu, ajeitou o cabelo negro e abriu a porta. Era Nicholas.
- Já estava acordada, senhorita?
- Sim. – respondeu ela, sorrindo. – Por quê?
- Hoje começam seus treinamentos.
Ela franziu o cenho.
- Treinamentos?
- Sim. Se você vai fazer parte da BB precisa saber atirar, dirigir... enfim. Dylan não lhe disse? – estranhou o grandão.
- Não. Não me disse nada.
- Deve ter esquecido... ou achado que você já sabia. Você já sabe fazer essas coisas?
- Ahn... não. Nunca peguei numa arma trouxa e muito menos pilotei aquela coisa com rodas.
- Carros. E é “dirigir” o verbo correto.
- Que seja. – revirou os olhos.
- Então?
- Então o que?
- Já está pronta?
- Ah. Não... lógico que não... não está vendo? – apontou para ela mesma, mostrando que usava apenas um short e uma regata curta. Nicholas engoliu em seco, observando o corpo dela. – Hey... aqui. – ela estalou os dedos na frente do rosto dele e apontou para o seu próprio, indicando que ele deveria olhar para o seu rosto.
- Me desculpe. Adrian estará esperando a senhorita para começar os treinamentos.
- Adrian?
- É. O meio irmão--...
- Eu sei quem é ele. Mas por que ele vai me treinar?
Nicholas ergueu uma sobrancelha.
- É o melhor atirador que nós temos. Ele também atira facas e dardos, mas não sei se irá ensiná-la essas coisas. Dirigir você aprenderá com o Sam.
- Quem é Sam, criatura?
- O seu professor de direção
Charlie revirou os olhos.
- Ta ok. Eu vou trocar de roupa e depois vou encontrar com o Adrian. Onde ele está?
- Vou esperar que se troque e então a levarei até ele.
- Ótimo. – e fechou a porta na cara do grandão.
Após se trocar abriu a porta e encontrou Nicholas ainda parado na mesma posição que se lembrava.
- Pronta?
- Sim. – respondeu ela.
- Por aqui, por favor. – Nicholas começou a andar e Brenda o seguiu. Vestia uma calça confortável, de um tecido leve e uma baby look preta. Os cabelos amarrados em um rabo, e tênis.
Entraram por uma porta e a sala que Charlie viu era enorme. Tinha armas dispostas por toda a parede e no final da sala os alvos a serem acertados.
Adrian estava carregando uma pistola e levantou a cabeça assim que Brenda entrou. Nicholas saiu, fechando a porta em silêncio.
- Bom dia. – cumprimentou sorridente.
- Bom dia, Adrian.
Ela esperou pacientemente que ele terminasse o que fazia e pegou a pistola que fora arremessada em sua direção.
- Já usou uma dessas? – perguntou ele, chegando ao seu lado.
- Não. Nunca. – ela respondeu, observando os detalhes da arma.
Adrian parou em frente a mulher e colocou um protetor de ouvido nela. Sorriu quando ela estranhou e abaixou o protetor, olhando curiosa.
- É pra não machucar seus ouvidos. – explicou, sem que ela tivesse perguntado. Pegou um óculos transparente e grande e estendeu a ela. – E isso para proteger os olhos. Só por garantia. - ela assentiu e colocou os óculos no rosto, deixando o protetor de ouvido caído nos ombros ainda.
Ele parou, observando-a. Charlie olhou para todos os cantos, esperando que ele falasse algo, mas Adrian se calou.
- O que foi? – perguntou ela, risonha, quando ele não parou de olhá-la.
- Estou imaginando o estrago que você vai fazer com os inimigos do meu irmão.
Ela arqueou a sobrancelha.
- Como assim?
- Uma mulher tão linda quanto você e tão fatal quanto vai se tornar... – ele sorriu.
Ela cerrou os olhos e sussurrou.
- Eu já sou fatal.
Ele riu.
- Ótimo. Vamos começar?
Ela deu de ombros.
- Coloque o protetor de ouvido. – falou ele, guiando-a até certo ponto da sala.
Ela fez o que ele mandou e Adrian começou a explicar como ela deveria segurar a arma, como posicionar as pernas, os braços, a cabeça. Como mirar, como apertar o gatinho.
- Tente. – falou ele, dando alguns passos para trás.
Brenda respirou fundo, na posição que ele a tinha deixado e mirou o alvo, que parecia cada vez mais longe. Atirou. Errou feio. Adrian sorriu e se aproximou, tirando um lado do protetor para que ela o ouvisse nitidamente.
- Mais para baixo. – e colocou sua mão sobre a dela, abaixando-a. Colocou o protetor cobrindo ouvido de novo, mas permaneceu parado ao lado dela.
Charlie atirou mais uma vez, mas errou de novo.
- Concentre-se. – ele chegou atrás de Brenda e envolveu o corpo dela com os braços. Colocou suas mãos sobre as dela, endireitando a mira. Charlie revirou os olhos quando ele fez isso.
- Aperte o gatilho. – falou ele perto da nuca dela, fazendo-a se arrepiar. Ainda segurava os braços dela.
Charlie apertou o gatilho e acertou bem no centro do alvo. Sorriu, satisfeita.
- Nada mal. – falou ele, saindo de trás dela. – Vamos tentar com outra arma agora.
E passaram o dia todo treinando. Adrian sempre dava um jeito de tocá-la.
Por mais que não quisesse, Charlie começava a gostar do irmão de Dylan, mas toda vez que lembrava do laço de sangue que carregavam, voltava a odiá-lo com todas as forças possíveis.
Charlie entrou pela porta do beco, encostando a varinha na fechadura e pronunciando mentalmente “trasgo montanhês”, o que a fez lembrar de Noskort e o ataque à Draconian.
Passou por várias portas abertas, com pessoas fazendo de tudo dentro das salas, desde conversas, reuniões sérias, treinamentos, até sacanagem pura.
Enfim, parou perto da última porta do corredor, a única diferente, de uma madeira escura. Levantou o punho para bater quando ela se abriu.
- Brenda! – falou Dylan sorridente.
Ela tentou não demonstrar surpresa, sem sucesso.
- Sentiu que eu estava chegando, querido? – ela sentia nojo cada vez que precisava falar com ele.
Dylan riu e mandou que ela entrasse. Brenda obedeceu, retirando o capuz da cabeça assim que estava lá dentro.
- Pronta para sua iniciação?
Charlie já havia imaginado mil e uma coisas que pudessem ser essa tal “iniciação”. Absolutamente tudo já tinha passado por sua cabeça e, se ele fizesse o que não deveria, ela teria de matá-lo agora, mesmo que não conseguisse sair do prédio viva.
- Acho que sim. – respondeu ela, tentando parecer animada, mas claramente receosa.
- Não se preocupe. Não é nada demais. – ele falou tão calmamente que ela chegou a acreditar, mas assim que ele ficou perto o bastante e tocou seu rosto, ela engoliu em seco.
- Poderia me adiantar que tipo de coisa eu preciso fazer pra entrar oficialmente para a Bloody Bats?
Ele sorriu, ainda acariciando o rosto dela.
- Nada demais. – e deu às costas a ela.
Charlie sentiu vontade de pular no pescoço daquele homem e sufocá-lo até que o último fio de vida passasse por seus olhos, mas permaneceu sorrindo.
- Não foi isso que eu perguntei. – séria.
Ele pegou dois cálices e despejou vinho. Levou um até Brenda e entregou a ela.
- Está com medo? – perguntou Dylan, enquanto batia sua taça a dela, de leve, num brinde silencioso.
- Medo? Você acha que eu tenho medo? – incerta sobre beber o vinho.
Ele sorriu e deu um gole na bebida, estalando os lábios de prazer ao final.
- Delicioso. – olhou para ela. – Não vai experimentar?
Ela olhou para sua taça. Aparentemente estava tudo normal, era apenas vinho. Deu de ombros.
- Não gosto muito de vinho... mas vamos ver. – e levou a taça até a boca, fingindo beber, mas apenas molhando os lábios.
- Não é magnífico?
- Gostoso. – mentiu ela.
Dylan sorriu e deu às costas a ela mais uma vez, caminhando até a janela. Charlie aproveitou para dar uma olhada minuciosa no cálice, tentando ver algo de anormal, mas não encontrou. Assim que ele se virou, ela já estava na mesma posição de antes.
- O que você faria para entrar na minha organização? – e pareceu estudá-la.
Ela mediu bem as palavras antes de começar a falar.
- Bem. – pousou a taça numa mesinha, perto da poltrona de couro. – Acho que faria quase tudo.
- Então, vou reformular a pergunta: O que você não faria para entrar na minha organização?
Ela ficou surpresa com aquelas perguntas. Olhou para cima, pensando, apesar de não precisar. Sabia exatamente o que não faria, mas precisava analisar como dizer isso.
Após certo tempo, ergueu os ombros.
- Acho que não dormiria com você nem com nenhum outro membro da BB.
Ele franziu o cenho.
- Não vou negar que isso passou pela minha cabeça... mas não como iniciação. – piscou, com um sorriso que, provavelmente, estava planejado ser sedutor, e realmente o seria se ela não sentisse tanto asco por aquele homem. – Só isso? – perguntou curioso.
Ela tentou pensar em mais alguma coisa, mas as outras respostas não poderiam ser dadas sem que seu disfarce fosse descoberto.
- Acho que sim.
- Ótimo! – animou-se ele. Charlie teve a impressão de que ele ia continuar falando, se a porta não tivesse sido aberta e por ela tivesse entrado um homem falando muito rapidamente.
- Dylan. Os caras do outro lado estão ameaçando--... – ele parou, ao notar Brenda.
A mulher sorriu e deu um “tchauzinho” com os dedos. Ele ficou sem graça e olhou dela para Dylan.
- Desculpe. Ninguém me avisou que você estava acompanhado.
Dylan, ao contrário do que Charlie havia imaginado, sorriu e caminhou animado até o outro.
- Meu irmão! – abraçou-o, para surpresa de Charlie e do próprio irmão. – Quero lhe apresentar a mais bela mulher do planeta: Brenda. – e apontou para a mulher, que permanecia sorrindo.
- P-prazer. – falou o irmão de Dylan, sem conseguir conter o espanto de estar sendo tratado daquela forma.
- O prazer é meu, senhor...? - ela se aproximou e estendeu a mão a ele. O irmão de Dylan segurou a mão dela e deu um leve beijo.
- Adrian Malkowski. - a olhou nos olhos, tão profundamente que ela teve de desviá-los.
- Estamos apresentados. – falou ela, olhando Dylan. – Não sabia que o senhor tinha um irmão.
- Meio irmão. – corrigiu Adrian.
- Assim mesmo. – respondeu ela, voltando a olhá-lo por apenas um segundo.
Dylan observava os dois e lançou um olhar cortante ao irmão.
- Bem... – começou Adrian, assim que percebeu o olhar do irmão. – Nos falamos mais tarde então, Dylan. Com licença. – e saiu da sala, sem fazer barulho.
- Desculpe-me pela interrupção, Brenda, mas meu meio irmão não tem classe.
- É um homem encantador. – respondeu ela, sem saber se deveria fazê-lo.
- Isso por que você não o conhece. – riu.
Ela sorriu, parecendo adorar a “piada”, mas não tinha a menor vontade de rir.
Ele pareceu perceber que ela não tinha achado graça e se aproximou, colocando a mão nas costas dela e a guiando em direção a porta.
- Vamos acabar logo com isso, não é mesmo?
Brenda voltou a sorrir, sem responder.
Eles saíram pela porta e caminharam pelo corredor, em direção a saída, à porta azul marinho do beco.
Algumas pessoas reverenciavam Dylan enquanto passava. Outras sorriam e acenavam e ainda havia aquelas que nem sequer ligavam. Algum cochicho começou a ser ouvido sobre a mulher, mas Charlie tentou permanecer com seu rosto inexpressivo, enquanto torcia silenciosamente para que chegassem logo à porta e pudessem sair do meio daquelas pessoas curiosas.
Logo que saíram, o vento gelado cortou a pele de Charlie. Nevava e ela prendeu mais a capa ao corpo.
- Aonde estamos indo? – ousou perguntar.
Dylan sorriu.
- A um lugar secreto. – ele piscou.
Ela sorriu de leve. Não queria admitir, mas estava começando a ficar com medo. Já sabia do que aquele homem era capaz e tentou afastar as imagens de seu pai morto e o som da risada sádica dele enquanto a torturava.
E se ele já soubesse quem ela era? Charlie repassou tudo que tinha acontecido desde que explodiu sua casa. O cabelo dela foi encontrado, prova de que estava dentro da residência no momento em que tudo foi pelos ares. No Japão não tinha como ele a ter descoberto, muito menos na Inglaterra ou na França.
Nicholas esperava em pé ao lado de um carro negro. Dylan abriu a porta traseira e fez sinal para que ela entrasse. Brenda obedeceu sem pestanejar, começando a tremer levemente, tentando achar alguma brecha em seu plano que tivesse dado errado. Nicholas entrou ao lado de Charlie e lançou-lhe um sorrisinho, que foi devolvido pela garota.
Dylan entrou na parte da frente, no banco do passageiro, enquanto um homem de uniforme preto ligou o automóvel e o colocou em movimento.
O silêncio imperava. Apenas o barulho do motor e das crianças pulando corda na rua eram ouvidos.
Charlie percebeu que não tinha como eles a terem descoberto. Afastou todos esses pensamentos, focando no caminho que percorriam. Era a primeira vez que andava de carro e começava a se sentir enjoada.
Finalmente o automóvel parou. Todos os ocupantes desceram e Charlie percebeu que tinham estacionado em frente a uma vitrine onde lia-se “Tattoo”.
Dylan fechou o terno e caminhou imponente, como sempre, em direção a loja pequena. Como Charlie não se mexeu, Nicholas a empurrou, para que seguisse o chefe.
Entraram pela porta estreita e Nicholas ficou do lado de fora, assim como o motorista. Um homem usando um colete de couro de dragão e com os braços inteiramente tatuados sorriu e chamou a garota para trás de uma cortina vermelha, sem dizer nada. Dylan a olhou e sorriu tranqüilizando-a.
- Sua iniciação é apenas uma tatuagem.
Ela estranhou.
- Só isso?
- É uma tatuagem muito especial. – ele continuava sorrindo.
- Posso saber o que tem de especial nela?
- Depois que fizer, eu lhe digo. – e ele virou e saiu da loja, parando ao lado do grandalhão.
Charlie respirou fundo.
- Olha só no que me meti. – resmungou para ela mesma e entrou pela cortina.
- Nicholas. Quero que traga essa mulher aqui.
O grandão assentiu com um movimento da cabeça.
- Mas antes quero que ela prove na minha frente que é tão boa quanto está sendo comentado.
Nicholas não quis demonstrar, mas seus olhos se arregalaram instintivamente.
- Senhor, se me permite, ela atacou a mim... e me venceu, sem dificuldade.
Dylan mediu o homem que era seu braço direito desde a adolescência. Sabia que para vencer aquele grandalhão tinha que ser alguém muito bom, ou no mínimo alguém de muita sorte.
- Leve-a até o galpão. Vamos colocar alguns baderneiros lá. Ficarei escondido na sala, você ficará comigo. Quero ver com meus próprios olhos como essa garota luta. Se for tão boa quanto você diz, entrará para a Bloody Bats hoje mesmo.
Nicholas não pode deixar de sorrir.
- Sim senhor. – e saiu da sala, deixando Dylan olhando pela janela, pensativo.
***
Charlie recebeu uma coruja sem remetente. Achou aquilo muito estranho, mas não podia deixar de comparecer ao local indicado.
Ao chegar ao galpão, ficou impressionada com o tamanho do lugar. Levava a varinha firme no punho sob a capa.
A porta do galpão se abriu magicamente e ela entrou, desconfiada, olhando para todos os cantos que seus olhos pudessem alcançar. O silêncio era quase ensurdecedor e apenas seus passos ecoavam no ambiente.
Ela ajeitou a capa ao corpo assim que percebeu o primeiro homem, segurando a varinha apontada para ela, no alto de uma plataforma à sua frente. Logo depois ouviu passos perto da porta que se fechava. Dois homens, pensou ela sem olhar para trás.
Estava preparada para atacá-los, mas não faria sem um motivo. Mais dois homens apareceram, apontando pistolas para ela, um a cada lado.
Ela limpou a garganta, parecendo entediada, esperando que algo acontecesse.
Um dos homens que estavam atrás dela correu em sua direção e Charlie se abaixou. O homem voou por cima dela, aterrissando com as mãos a sua frente.
Ela levantou e bateu o ombro, como se tirasse um pó imaginário.
O homem que estava a sua direita apontou a varinha.
- Estupefaça!
- Protego! – protegeu-se.
O homem do outro lado apontou a arma para ela. Charlie o observava pelo canto dos olhos. Ele olhou para algum ponto em cima da plataforma e baixou a arma, pegando a varinha.
- Estupefaça! – gritou ela, apontando a varinha em sua direção, antes que o homem pudesse fazer qualquer coisa.
O homem que estava a sua frente pulou da plataforma em direção a ela.
- Imobbilus! – ele ficou imobilizado no ar.
O homem da direita correu para ela também. Charlie desviou de alguns golpes que ele tentava acertar, mas acabou recebendo um soco no abdômen. Ela ficou enfurecida e apontou a varinha para o meio dos olhos dele.
- Furnunculus! – o homem gritou e colocou a mão no rosto, se afastando cambaleante enquanto queimaduras apareciam em sua face.
O outro que estava às suas costas veio correndo. Charlie deu um passo para o lado e deixou a perna no caminho, fazendo-o tropeçar. O homem caiu de boca no chão. Ela caminhou até ele a apontou a varinha para sua cabeça, segurando o pescoço dele com o pé.
Olhou para a plataforma, procurando para onde o homem da esquerda tinha olhado antes, e encontrou uma janela, mas estava vazia.
Aplausos começaram a ser ouvido atrás dela e Charlie virou, apontando a varinha.
Seu corpo estremeceu. Era Dylan, sorrindo da mesma forma nojenta da qual se lembrava.
- Muito bem. Parece que o que andaram comentando era mesmo verdade. Alguns boatos foram aumentados, dizendo que você tinha pelo menos dois metros de altura e 100 kg. – ele riu. – Estou realmente impressionado!
Ela não conseguiu abaixar a varinha. Na verdade não conseguiu fazer nada.
Havia imaginado esse encontro inúmeras vezes, mas agora, ali, era uma sensação completamente diferente. Poderia matá-lo, agora, mas provavelmente não sairia viva. Pelo menos teria alcançado seu objetivo. Não! Seu objetivo era entrar, matar, sair. Viva.
Brenda sorriu.
- Você é o cara?
- O cara? – perguntou ele, enfiando as mãos nos bolsos.
- É. O chefe, comandante... líder. Dê o nome que quiser.
Ele abriu um largo sorriso e se aproximou dela.
- Sou sim. E quero convidar você para integrar os Bloody Bats. O que me diz? – parou a pouco menos de um passo de distância dela.
Charlie sorriu e ajeitou o cabelo.
- Era meu objetivo.
- Ah, era? Como soube sobre nós?
- Tenho amigos... na região. – ela piscou, parecendo verdadeira.
Ele levantou a mão e tocou o rosto dela, delicadamente. Ela teve vontade de sair correndo, mas permaneceu imóvel.
- Você é uma mulher muito bonita... senhorita...?
- Brenda.
- Brenda?... Só Brenda?
- Só Brenda. – respondeu ela.
- Ok, "Só Brenda"... – brincou ele. – Nicholas lhe dará um endereço. Amanhã às oito horas da manhã estaremos esperando por você. Não se atrase. – ele piscou e foi caminhando em direção a saída. Ao passar por Nicholas, falou num tom que apenas ele ouvisse.
- Ache algo sobre ela. Qualquer coisa, e me mande até a meia noite de hoje. – e saiu.
Nicholas assentiu e olhou a mulher. Sorriu e caminhou até ela. Retirou um pergaminho dobrado do bolso e entregou. Acenou, saindo em seguida.
Charlie observou enquanto os dois cochichavam e pegou o pergaminho, sorrindo. Não o abriu, enfiou no bolso da calça e aparatou.
Havia se despedido de Alexander e Eve na Inglaterra. A amiga tinha falado para que Charlotte não fosse zilhões de vezes. Como se via, todas ignoradas, uma vez que Charlie se encontrava nos Estados Unidos nesse momento.
Estava com uma forma diferente. Transformou seu rosto e seu corpo no de outra pessoa. Uma mulher de espessos cabelos negros, olhos castanhos levemente puxados para os lados. Os lábios eram grandes e a pele morena. Ela queria chamar atenção, precisava disso.
Ainda não sabia exatamente onde a organização de Dylan se localizava, apenas sabia que era naquela região.
Ela enfiou o capuz da capa marrom na cabeça, mas sem cobrir o rosto. Seguiu pela calçada, observando tudo.
Àquela hora da noite apenas os baderneiros estavam nas ruas. Homens armados passavam por ela e mexiam. Charlie ignorava e continuava andando. Até que pouco mais a frente ela viu um rosto conhecido. Era ele. O homem que estava com Dylan no Beco Diagonal há uns dois anos.
O homem grande ficou observando enquanto ela se aproximava.
- Olá. – falou ele, com o sorriso torto quando Charlie passou ao seu lado.
Ela sorriu e continuou andando. Ele foi atrás, percebendo a brecha que ela havia deixado.
- Quanto é?
Ela parou e o olhou, fechando a cara.
- Não sou prostituta. – empinou o nariz e deu as costas a ele.
Ele arregalou os olhos e foi correndo até ela. Parou a sua frente, bloqueando a passagem.
- Me desculpe. Me enganei.
- Tudo bem. Com licença. - bateu no tórax enorme do homem, como se mandasse ele sair de sua frente, mas ele permaneceu imóvel.
Ela o encarou.
- Com licença. – repetiu.
- Não vou sair daqui, gracinha. – ele sorriu nojento.
Ela cerrou os olhos.
- Se você não sair, serei obrigada a quebrar sua cara. – falou num quase sussurro, ameaçadoramente.
Ele gargalhou e chamou alguns amigos.
- E como pensa que fará isso, gracinha?
- Com as minhas mãos. Talvez use minha varinha, mas com as mãos é mais divertido.
Ele riu de novo.
- Vá lá garota... - colocou seu rosto perto do dela e indicou seu queixo. – Me bata. – divertido.
Ela sorriu de canto.
- Tem certeza?
- Absoluta. Vamos lá. Me acerte.
Charlie tirou as mãos de dentro da capa e desprendeu-a, revelando suas curvas. Jogou a capa para cima de um dos amigos do homem.
- Cuide bem dela. Eu adoro esse corte. – em seguida voltou-se ao homem. – Agora vamos cuidar de você. – e fechou o punho, acertando um soco com toda a força que pôde no queixo do homem. Ele se desequilibrou e caiu sentado, massageando o queixo e cuspindo sangue no chão.
- Sua vadia! – gritou ele e os amigos fecharam o círculo em volta dela.
- Vocês também querem? – perguntou ela, confiante.
Os homens sorriram e se aproximaram calmamente, tirando suas varinhas dos bolsos ou pequenas facas e bastões. Eram uns seis, Charlie contou por cima. Um deles a atacou, trazendo uma faca nas mãos. Ela bloqueou o ataque com o antebraço, sem ser acertada pela lâmina. Girou o braço dele e o prendeu contra as costas do homem, forçando o braço para cima.
- Vou quebrar o braço dele. – avisou os outros, mas um homem loiro veio correndo atrás dela. Charlie apenas levantou a perna e acertou o salto fino da bota na garganta dele. O loiro caiu para trás, segurando a garganta.
- Estupefa--... – um negro apontou a varinha para ela, mas Charlie colocou o homem que segurava na frente do feitiço e o soltou, vendo-o voar para trás. Sacou sua varinha e apontou aos quatro homens que restavam. Ela sorria quase maniacamente.
- Quem será o próximo? – perguntou, os chamando com a mão.
O grandão gritou algo aos outros e os quatro correram para ela ao mesmo tempo.
- Expelliarmus! – Charlie gritou, apontando para o mais próximo.
Logo um pé subiu para acertar seu rosto. Ela se abaixou e passou a perna no atacante.
- Estupefaça! – gritou ainda abaixada para o grandão, que voou para trás também.
Uma outra perna veio em direção ao rosto dela e Charlie desviou, quase deitando no chão. Levantou de um pulo, passou a varinha da mão direita para a mão esquerda com uma rapidez incrível e socou o rosto do negro, fazendo-o tombar para trás.
O homem que havia sido acertado pelo Expelliarmus voltou correndo na direção dela. Charlie desviou de um soco e acertou seu punho nas costelas dele, depois uma cotovelada em seu rosto, quebrando seu nariz. Ele gritou e segurou o rosto, recuando.
Charlie soprou o fio do cabelo liso que tinha caido no rosto e rodou a varinha nos dedos.
Havia ainda um garoto em pé, o mais baixinho e magrelo de todos. Ele tinha um bastão de madeira na mão, mas tremia da cabeça aos pés.
Charlie sorriu a ele.
- Vá limpar suas calças, criança. – o garoto saiu correndo, deixando o bastão no chão.
O grandão se levantou, massageando o ombro.
- Quem é você? – perguntou ele.
- Me chamo Brenda. Quero entrar para sua gangue.
Hoje, Alexander e Charlie já estavam lutando há alguns minutos. Eve assistia concentrada sentada em um banco perto da parede da academia.
Charlotte já lutava muito bem, observou a amiga. Estava começando a deixar Alexander cansado.
Eve sorriu quando Alex acertou a espada na perna de Charlie e a amiga enfiou a sua na garganta dele. A luta havia terminado. Charlotte sorriu largamente.
- Última morte.
Alex sorriu, apesar de não entender o que ela quis dizer com aquilo.
Eve se levantou a aplaudiu.
Charlie continuava com a espada encostada no pescoço de Alexander, saboreando o gostinho da vitória.
Ele suspirou. Estava ajoelhado e se levantasse, teria a garganta cortada.
- Vai demorar muito pra tirar essa lâmina de perto de mim?
Charlie riu.
- Que chato! Nem pra me deixar aproveitar o momento! – fingiu emburrar e embainhou a espada com agilidade, estendendo a mão para ajudar o homem a levantar. Alexander segurou a mão dela e ficou em pé, sorrindo.
- Muito bem, senhorita Flynn. Meus parabéns. – apertando a mão dela, amigavelmente.
Ela sorriu, satisfeita e orgulhosa.
- Obrigada, senhor Chateau-Briant.
Ele bagunçou o cabelo dela, alegre e saiu, massageando o ombro. Ao passar por Eve, apontou com o polegar para trás.
- Sua amiga me deu um banho hoje, hein?!
Eve sorriu.
- Eu vi... ta ficando velho, hein? – brincou.
Alexander se retirou e Charlie correu até Eve, pulando em seu colo.
- Sua amiga é demais, não acha?
Eve a segurou e quase caiu.
- É... demais de gorda... sai... – empurrando Charlie e rindo.
Charlotte desceu do colo de Eve sorrindo e então ficou mais séria.
- Acho que chegou a hora, Eve.
O sorriso da outra sumiu.
- Tem certeza? Vingança não leva a nada...
- Já falei que não é vingança!
- É sim. E você sabe que é!
- Não! – subindo o tom da voz. – Eve, vê se entende: eu jamais vou poder ter uma vida calma, uma vida normal enquanto esse homem estiver vivo... ou eu estiver viva.
- Ok! Já discutimos isso antes. Não vou repetir que você é dona do seu destino e pode se dar muito mal indo atrás dele.
- Posso. Mas jamais me perdoarei se não tentar, pelo menos. Eu não agüento mais me esconder. Ter que mudar minha cara toda vez que vou sair na rua!
Elas se encararam por alguns segundos e então Eve deu às costas a ela.
- Já desejei boa sorte. – e saiu.
Charlie chutou o ar e bufou.
- Eu preciso. Eu preciso. – repetia para ela mesma.
- Está pronta, Charlie? – perguntou ele, girando duas espadas de madeira nas mãos.
- Estou... – respondeu ela, levantando e indo em direção a ele.
Alexander esperou ela prender a faixa e lhe entregou uma das espadas.
- Cinco dias. – lembrou ele, indo se posicionar para o início da luta.
Ela assentiu, lembrando que os treinamentos com a katana haviam começado há cinco dias e que em pouco tempo já poderia lutar com a espada de verdade.
- Ataque. – falou ele, já na posição. Charlie ajeitou as pernas e o atacou. As espadas de madeira se chocaram no ar, provocando um som oco. Alex bateu com força na espada dela e esticou o braço, encostando a madeira no peito de Charlotte.
- Morte número um.
- Começou. – resmungou Eve, no canto da academia, observando os dois de um ponto onde eles não pudessem vê-la.
Charlie cerrou os dentes e se posicionou de novo. Voltou a atacar, mas Alexander era muito ágil. Ele bateu com a espada de madeira no braço dela, fazendo uma careta de dor aparecer no rosto da garota, e balançou a madeira até chegar a um dedo de distância do pescoço dela.
- Morte número dois. – ele sorriu. Parecia gostar de vê-la errando. – Vamos lá, Belladonna. O que foi? Está com medo de mim? – falou ele, enquanto rodeava o corpo dela.
Charlie sabia que ele só estava tentando irritá-la e respirou fundo, mantendo a calma. Num rompante, deu um giro no próprio corpo e atacou as pernas dele, mas Alexander já esperava por isso e apenas deixou a espada dele encostar-se ao abdômen da mulher.
- Três. – riu ele. Charlie voltou a atacar e as espadas se bateram várias vezes antes que ela conseguisse esticar o braço e apontar a ponta de sua espada para a garganta de Alexander.
- Morte número um. – ela falou, meio ofegante. Para sua surpresa, Alexander sorriu e bateu a espada dele na virilha dela. Charlie olhou para baixo e fez uma careta. Ele voltou a rir.
- Garganta e virilha, Charlotte. Nunca se esqueça de protegê-las. Alguns inimigos podem ser fortes o bastante para te levar junto.
Ele voltou a se posicionar enquanto falava.
- Agora pare de ser uma completa idiota e faça alguma coisa. Não estou afim de gastar meu tempo com--...
Ele não terminou de falar, Charlie voltou a atacar. Ele riu enquanto se defendia.
- Uhh! Ela ficou nervosinha!
Charlie não respondia as provocações. Só queria acertá-lo, pelo menos uma vez, para que ele parasse com aquele tipo de brincadeiras.
- Vamos Charlotte! Me mate!... Eu sou Dylan, eu matei seu pai!
Charlie parou de atacar e franziu o cenho.
- O que está falando...?
Alex riu e atacou-a. Ela se defendeu no reflexo.
- Você não quer me matar? Sua fracote. Eu fiz sua mamãe ficar doidinha... você será a próxima.
- Pare com isso. – ela falou, estranhando o jeito maníaco como Alexander falava.
- Você é mesmo uma grande idiota, Charlotte! Pensou mesmo que eu acreditaria que estava morta? – atacou-a. Charlie se defendeu. – Vou matar sua família toda na sua frente...
A mulher se defendia dos ataques individuais dele.
- Me mate! – ele gritou, batendo a mão no peito. – Sua babaca... sua fraca. Vou matar seu avô... vou matar seu irmão... vou matar todos que você conhece e gosta! Você ficará sozinha no mundo...
Charlie começou a ficar nervosa. Por que ele estava falando aquela coisas?, pensava enquanto segurava a espada cada vez mais forte nas mãos.
Ele enfiou a espada de madeira no abdômen dela mais uma vez.
- Está abrindo a guarda, idiota! – gritou e deu alguns passos para trás. – Sabe que matar seu pai foi muito divertido?! Vendo-o sangrando aos pouquinhos... – ele riu, sádico. – Você encolhida num canto, chorando... – riu novamente.
Charlie não sabia se fazia certo, mas àquela altura a razão já havia abandonado sua mente. A raiva tomou conta de seu corpo e ela foi para cima dele, atacando de qualquer forma, apenas querendo acertá-lo. Lembrava-se do rosto de Dylan e seus movimentos ficaram mais rápidos e fortes. Alex se assustou com o primeiro golpe, mas bloqueou-o e continuou bloqueando, vendo que Charlie estava fora de si.
- Isso mesmo, idiota. Vingue-se. Vingue-se por seu papaizinho!
Eve tinha colocado a mão no peito, temendo que algo desse errado. Confiava no padrinho, mas achava que ele tinha pegado pesado.
Charlie batia sua espada contra a dele com tanta força que a dela rachou, mas ela nem percebeu. Alexander tentava se defender de todas as formas possíveis, agora apenas no reflexo. Charlie estava vermelha de raiva e não tinha jeito de quem pararia até enfiar a espada de madeira no coração dele. Alexander aproveitava as brechas que ela deixava e lhe acertava com a espada nos braços, nas pernas, no abdômen e até no rosto, nenhum golpe seria fatal, mas a faria ficar muito mais fraca se fosse uma luta de verdade. Charlie quase não o acertava, batendo contra a espada dele todas as vezes que tentava. Duelaram por vários minutos seguidos, fazendo Eve quase pular no meio deles para separá-los, até que, num golpe rápido e forte, Alex bateu sua espada contra a dela e a última quebrou ao meio. Charlotte sentiu a madeira se quebrar e olhou-a, sentindo a ponta da dele empurrar seu peito para trás. Ela percebeu que ele não pararia de empurrar e deu alguns passos para trás, até encostar em uma pilastra. Sentiu uma dor forte no peito e fechou os olhos. Alexander chegou ofegante bem perto do ouvido dela.
- Você... ainda é péssima. – e se virou, abaixando os braços e passando pela afilhada sem dizer nada.
Eve tinha os olhos arregalados e o seguiu até que sumisse atrás de uma porta. Então voltou o olhar à amiga e correu até ela.
- Você está bem?
Charlie escorreu pela parede e sentou no chão, segurando o peito. Tinha uma expressão de dor, que só foi aumentando enquanto seus músculos paravam de se mexer e ela sentia os pontos onde Alex havia acertado a espada de madeira durante a luta.
- Você está bem? – repetiu a pergunta.
Charlie balançou a cabeça, afirmativamente.
- Preciso... de mais... treino. – ofegou.
- Vai com calma. Alexander pegou pesado, vou falar com ele. – e fez menção de se levantar, mas Charlie segurou seu braço.
- Não.
Eve olhou para a amiga estranhamente e por fim assentiu.
- Certo. Agora venha, vou te dar uma poção senão você vai ficar toda dolorida durante dias.
Alexander dançava ao som da valsa e tentava acordá-las.
- Vamos, vamos, vamos... acordem.
Eve resmungou e se escondeu debaixo das cobertas.
- Me deixa dormir. – suplicou ela, tentando se livrar das mãos de Alexander.
- Os treinamentos vão começar sem vocês. – ele desistiu de Eve e seguiu até Charlie. – Belladonna... acorde! – ordenou, sem sucesso. Charlie fez um sinal com a mão, como se fosse para deixá-la em paz, com o rosto ainda embaixo do travesseiro.
- Vocês estão me obrigando a ser mais firme.
O padrinho de Eve chamou o elfo que estava parado na porta, com uma bacia nas mãos.
- Pode acordá-las... – apontou as duas camas, uma em cada canto do quarto.
O elfo assentiu e seguiu até Eve. Chegando ao lado da cama, virou a bacia de água em cima da cabeça dela. Eve sentou na cama, ofegando, irritada.
- O que pensa que está fazendo? – gritou ao elfo.
Charlie sentou na cama, rapidamente.
- Estou acordada.
Eve a cortou com o olhar e Alexander riu. O elfo se retirou.
- Vamos preguiçosas. Dou dez minutos para estarem lá embaixo. – e saiu do quarto.
Charlie voltou a deitar. Eve se levantou reclamando e seguiu para o banheiro. Depois de alguns minutos, saiu pronta de lá e viu que Charlie estava dormindo de volta. Eve sorriu e seguiu até a amiga, apontando-lhe a varinha.
- Aguamenti!
Charlie sentou na cama, tossindo.
- Sua louca! – gritou ao notar que era Eve. A outra riu.
- Não faça Alexander subir aqui de novo, ou você irá sofrer nas mãos dele. – saiu.
Charlie xingou baixo e levantou. Arrastou-se até o banheiro, se trocou e alguns minutos mais tarde saiu do quarto. Ao chegar à sala de jantar, Eve e Alexander sorriam, tomando café da manhã.
- Finalmente. – implicou Eve.
Charlie se sentou e tomou um café rápido. Depois os três seguiram para a grande sala de treinamento.
- Vamos ver o que nossa querida Belladonna já sabe... – provocou o homem, a olhando sorridente.
Eles começaram a treinar. Charlie mostrou que já tinha certa habilidade com as lutas corporais, mas que precisava de mais disciplina.
Ao final do dia, Alex elogiou o desempenho da amiga da afilhada em particular a Eve.
- Ela tem potencial. – falou ele.
Eve sorriu.
- Eu sempre soube disso.
- Mas precisa de mais treino.
- É por isso que ela está aqui, certo? – ambos sorriram.
Os dias se repetiam. Charlie melhorava cada vez mais, até que o professor decidiu que ela já podia começar as aulas de manuseio da katana.
- Estava com saudades. – a mulher dizia.
Alexander estava sorrindo e, ao ver Charlie, soltou a afilhada.
- Seja bem vinda a minha humilde casa, Belladonna.
Charlotte sorriu. Já tinha se acostumado a ser chamada de Bella ou Belladonna novamente.
- Obrigada senhor Chateau-Briant.
- Alexander, Bella. Alexander.
Ela sorriu.
- Só se me chamar de Charlotte.
Eles se encararam, divertidos.
- Pode continuar me chamando de senhor Chateau-Briant, então.
Ele riu, acompanhado de Eve. Charlie apenas sorriu.
Alexander colocou uma das mãos no ombro de Charlie e outra no ombro da afilhada.
- Mandei preparar um jantar especial hoje.
Eve se animou.
- Aposto que estão cansadas. Vou deixar que se banhem e se troquem, então mandarei servir o jantar.
- Tudo bem. Vamos Charlie. – Eve segurou a mão da outra e a puxou em direção as escadas.
Elas tomaram banho, se trocaram e desceram, depois de serem chamadas.
Sentaram-se na mesa, uma de frente para a outra e Alexander na ponta. Tomaram uma sopa, em silêncio. Depois foram servidos de doce de abóbora, como sobremesa. Ao final, ficaram algum tempo conversando ainda na mesa.
- Amanhã começaremos os treinamentos. – avisou Alexander.
- Já? – espantou-se Charlie.
- Não está com pressa? – perguntou Eve.
- Não é bem pressa. Só...
- Nós sabemos, Charlotte.
Charlie o olhou e sorriu.
- Vou me recolher. Não vão dormir muito tarde, garotas. Amanhã bem cedo quero vocês duas em pé, hein? – piscou, beijou a testa da afilhada e acenou a Charlie. – Boa noite.
- Boa noite. – responderam as duas, em coro.
Eve e Charlie conversaram um pouco e depois foram dormir também.
Um homem alto, que aparentava seus quarenta e tantos anos abriu a porta. Os cabelos negros começando a ficar grisalhos, os olhos azuis profundos. Era bonito e charmoso.
- No que posso ser útil? – perguntou ele, observando a figura parada do lado de fora.
Charlie fechou os olhos por um momento, pensando se o que estava fazendo era mesmo o certo. Por fim, falou com a voz firme.
- Estou procurando Eve, senhor Merriworth. - sem ter certeza se ele sabia quem era.
Ele estendeu a mão para ela.
- Cansou da morte, Belladonna? - perguntou meio divertido. Charlie não respondeu. - De todas as amigas de Eve, sempre te achei a mais esperta! Entre... - falou por fim, a conduzindo para dentro da casa.
Charlie abaixou o capuz, mostrando os cabelos loiros já não tão compridos e os olhos azuis já sem muito brilho. Sorriu muito sutilmente e entrou na casa, sem falar nada. Observou a residência e depois pousou seus olhos em Victor.
- Ela está aqui?
Ele sorriu e caminhou pela sala, até parar perto de uma janela. Parecia cansado.
- Está no quarto dela... é a segunda porta à direita depois das escadas... não vai se perder. Ela está no piano...
Ao fundo as notas eram ouvidas.
- Todos a procuram, só esquecem do óbvio... - sorriu encarando Charlie.
- Que "óbvio” senhor Merriworth? - imaginava o que era, mas queria confirmação.
- Esquecem que todos um dia retornam a sua casa. - sorriu sutilmente. - Não seria diferente com ela. Eve está bem, a anemia controlada... vai gostar de te ver. – falou colocando as mãos nos bolsos da calça, indo em direção ao seu escritório.
A mulher balançou a cabeça, quase imperceptivelmente.
- Assim espero... – sussurrou, vendo-o seguir na direção oposta ao quarto de Eve.
Virou-se e subiu as escadas. Seguiu pelo corredor até a segunda porta à direita. Ouvia risos dentro do quarto, além do piano. Bateu na porta.
- Pode entrar... – ouviu a voz da amiga gritar lá de dentro.
Suspirou e girou a maçaneta, entrando lentamente no quarto.
Eve estava sentada no piano. Usava uma saia cigana longa e preta, uma blusa vermelha. Os cabelos negros estavam ainda mais compridos, passavam sua cintura. A pele já não demonstrava sinais de olheiras. Uma menininha estava em seu colo e brincava com as teclas do piano.
Charlie entrou de uma vez e fechou a porta atrás de si.
- Eve?
A música parou de ser tocada e Eve virou um pouco o rosto, encarando a amiga pelo canto dos olhos.
- Ressuscitou? – séria, voltando-se ao piano.
- Não... - respondeu séria. Olhou dela para a menina e continuou parada, com o rosto inexpressivo.
- Volte para a sua cova então...
Rapha pulou do colo de Eve e correu sorrindo até a outra.
- Oi... - falou para Charlie, enquanto dava os braços para que a pegasse no colo. – Mamãe... miga? – perguntou a garotinha, indicando Charlie.
Charlotte viu a menina correr até ela e engoliu em seco. Olhou Eve.
- Não vim para me explicar... mas se fizer questão, posso contar o que aconteceu... - falou, apesar de temer ser mandada embora. Sem tocar em Rapha.
- Me conte... sou toda ouvidos... – falou Eve, virando-se de frente para as duas. Chamou Rapha. - Vá ver o que vovô esta fazendo, ok? E peça a Summer um doce daqueles de abóbora que fiz hoje pela manhã.
A menina sorriu e saiu do quarto olhando feio pra Charlie.
- Miga da mamãe, má... – mostrou a língua e saiu. Eve riu.
Charlie franziu a testa a menina e voltou-se a Eve.
- Ela está ficando igualzinha a você, hein? – revirou os olhos e respirou fundo, sem saber como começar. - Eu precisei fazer isso, ok? Não podia colocar mais ninguém em risco.
- Todo o plano tem uma falha... Charlie. Você tem noção do que a sua família sofreu?
- Tem noção do que eu sofri? – rebateu.
- Isso não justifica nada... - sorriu de canto. - O que quer e como me achou?
- Só isso? Achei que ia fazer um interrogatório imenso e depois dar grandes lições de moral... - a olhou por um momento. - Quero... ajuda. – receosa.
Eve estudou a outra.
- Me dê um motivo para te ajudar.
- Por que você é minha amiga?!
- Sou... no que quer ajuda e como me achou?
- Bem... eu... tenho um problema. Preciso aprender a me defender... – ignorando a outra pergunta de novo.
- Como me achou? – repetiu a pergunta.
- Tenho meus meios...
- E quais são seus meios? – se virando para o piano.
- Meios eficientes, como pode ver. – deu alguns passos por ali. - Eu detesto a idéia de parecer interesseira... te procurando depois de tanto tempo só para pedir ajuda, mas... não tenho muitas opções... – suspirou. - Você pode negar, não ficarei chateada, não se preocupe...
- Não negaria ajuda a uma amiga. E eu teria feito o mesmo... - se levantou e foi até uma mesa de cabeceira. Abriu a gaveta e tirou um medalhão. - Prenda as coisas ao corpo da próxima vez... – jogou-o sobre a cama.
Quando Charlie viu o medalhão, seu coração martelou no peito. Foi até ele e o segurou.
- Achei que jamais o veria novamente. - olhou Eve. - Me desculpe... eu juro que não queria, mas... não havia outro jeito...
- Quer me contar? Como amiga...
Charlotte sorriu brevemente.
- Quem sabe outra hora... não quero falar disso agora.
- Tudo bem. – fez uma pausa. - Quer ajuda no que, exatamente?
- Bem, como falei, preciso aprender a me defender... não posso mais saber usar apenas a varinha, mas meu corpo também... Queria saber se dava pra você me ajudar a aprofundar os conhecimentos que tive no Japão em artes marciais... - transformando a frase numa pergunta.
- Meu padrinho vai adorar uma discípula... – riu.
- Tem certeza? Não quero atrapalhar, incomodar... enfim...
- Não vai atrapalhar... e eu também quero firmar o meu treinamento. Podemos fazer isso juntas... – sorriu e suspirou. - Suas coisas?
- Apenas uma mala reduzida no bolso. - bateu no bolso do sobretudo. – Não sabia se seria recebida, então...
- Jamais deixaria de te receber, Belladonna. – implicou.
Charlie sorriu.
- Eu já estou procurando um lugar aqui perto pra ficar...
- Ótimo... tem um quarto ao lado. Vou pedir para Summer arrumar. - piscou para ela. - Você fica aqui em casa.
- Eve...?! Já disse que não quero incomodar e... – pensou. - Bem, ok... – revirou os olhos e Eve riu.
As duas ficaram em silêncio durante um tempo.
- Tem notícias das pessoas de Noskort? – perguntou por fim Charlie.
Eve deu de ombros.
- O único com quem tenho contato é Ângelo.
- Sabe como Louise está?
- Na cadeia... deve estar bem.
Charlie respirou fundo, preocupada.
- Quem sabe não vou visitá-la...
- Está louca? Você sabe que se fizer isso, sua “morte” vai por água a baixo, não sabe?
Charlie sorriu.
- Tenho meus meios. – e piscou.
- Ui! Que misteriosa. – implicou Eve, rindo.
- E... – Charlie ponderou por um momento. – Sabe de Eric?
- Está na Suíça, com Lily. Parece bem. – sorriu de canto. – Ainda o ama, não é?
- Não sei. Faz muito tempo... – ergueu os ombros.
Eve entendeu que ela não queria desenterrar o passado, pelo menos por enquanto.
- Então vamos descer para o jantar?
- Vamos.
Eve seguiu até ela, passou os braços em seus ombros e saíram pela porta.
No último ano havia aprendido a transformar seu corpo quando desejasse e a fazer a poção Lobarson. Aprendeu a lutar, não muito bem, mas já dava para se defender. Jack a ensinou as maldições e ela simplesmente detestava imaginar usá-las algum dia.
Ao se despedir de Penny, Jack e Isao, ela não derramou um lágrima sequer, mas por dentro sentia uma tristeza imensa. Agradeceu tudo que eles fizeram por ela, prometeu manter contato sempre que possível.
- Iremos sentir sua falta, Bella. – falou Penny, segurando as mãos da amiga, chorando.
Charlie sorriu.
- Não é um adeus, Penny. É um... até logo.
As duas se abraçaram.
Jack chegou ao lado de Charlie. Ele parecia ser o único que imaginava o que ela planejava fazer.
- Tome cuidado, garota. A vingança não leva a nada.
Charlie franziu o cenho.
- E quem foi que disse que quero me vingar de alguma coisa?
Ele encarou-a e logo sorriu.
- É só um conselho, criança. – disse ele, puxando delicadamente a cabeça dela e beijando sua testa. Piscou, sorridente e se afastou, indo abraçar a filha, que ainda chorava.
Isao parou em frente a Charlie. Ele sorria tristemente.
- Foi ótimo poder ser seu mestre. – e a reverenciou.
Charlie imitou-o e depois que ambos levantaram o corpo, ela o abraçou. Há algum tempo não se tocavam daquela forma, diante de tudo que tinha acontecido.
- Vou sentir saudades, Kageyama.
Ele sorriu, mesmo sabendo que ela não veria.
- Não mais do que eu... pode acreditar.
Eles separaram os corpos e se olharam. Charlie sorriu. Em seguida se virou e pegou suas malas, no chão.
- Não me esqueçam... – falou ainda de costas a eles, se afastando, indo em direção a uma lareira.
Sumiu nas chamas verdes e apareceu em outro continente.
- O Beco Diagonal. – ela sussurrou ao sair da lareira. Já tinha imaginado como seria voltar àquele continente, mas nada se comparava ao que sentia agora.
“Inglaterra”, pensou. Se Eve não estivesse na Inglaterra, certamente estaria na França. Ou, se não estivesse em nenhum, provavelmente conseguiria descobrir ali, onde ela estava.
Mandou uma coruja ao amigo de Jack. O pai da amiga tinha dito que ao chegar era para contatar esse homem. Ele a ajudaria a encontrar um lugar para ficar.
Charlie nunca tinha estado no beco diagonal. Era um lugar, no mínimo, confuso.
Enquanto não recebia a resposta que estava esperando, ela resolveu andar pelo beco, conhecer o local.
Comprou um doce em uma loja e estava andando calmamente, observando as pessoas que passavam e as lojas. Foi quando, em meio ao mar de cabeças, Charlie viu um rosto conhecido e estremeceu. Era ele. Dylan.
Ela entrou rapidamente em uma loja, deixando o doce cair da mão, no meio da rua. Se escondeu atrás de uma estante e mudou sua forma.
“Droga, droga, droga!”, pensava enquanto saia de trás da estante, indo em direção à vitrine.
Viu quando Dylan e mais três homens continuaram andando rua acima e saiu do estabelecimento, seguindo-os.
Os viu entrar na Travessa do Tranco e parou.
- Preciso sair daqui...
Nesse momento uma coruja pousou por ali e piou. Charie foi até ela e pegou a carta, lendo rapidamente.
A coruja saiu voando e a mulher enfiou o capuz no rosto, sumindo entre as pessoas.
- Você está acabando comigo, Isao!
Ele riu e sentou ao lado da mulher.
- Foi você quem pediu!
- Não achei que você fosse tão bom...
Os dois sorriram.
- Gostou?
- Muito...
- Eu sou mestre nas artes marciais... achei que já estivesse acostumando... afinal, hoje faz uma semana que começamos...
- Parabéns para nós! – ela piscou brincando, recuperando o fôlego.
Isao havia entendido o motivo para Charlie ter lhe escondido o nome e tudo o mais. Os dois já estavam bem novamente. Ela era quase um mistério a ser desvendado e isso o assustava ao mesmo tempo em que atraía.
No dia seguinte ao que descobriu sobre ela, Isao resolveu ajudá-la, e perguntou se Charlie queria que ele ensinasse as artes marciais a ela, uma vez que Jack já estava ajudando a mulher com os feitiços de defesa, ataque e aqueles ditos imperdoáveis. Ela aceitou, obviamente. Qualquer ajuda era bem vinda.
Kegeyama começou a tirar a faixa que havia enrolado nas mãos no começo do treinamento. Não parecia cansado.
Charlie sentou, apoiando os braços nos joelhos, o olhando. Quando ele percebeu, sorriu.
- O que foi?
- Obrigada.
Ele estranhou e a encarou.
- Não precisa agradecer.
- Eu sei... mas quero.
Que entre os dois havia um clima, era fato! Desde o primeiro encontro. Isao foi o único que conseguiu fazer Charlotte estremecer apenas com um olhar... depois de Eric.
Do nada, Isao engoliu em seco e ruborizou, desviando o olhar do dela. Ela balançou a cabeça em negativo.
- Por que isso acontece?
Ele a olhou.
- Isso o que Eil--... Charlotte? – corrigiu. Ela sorriu, divertida com a confusão que ele ainda fazia.
Mordeu o lábio, pensando, e depois se aproximou, até que as bocas se tocassem. Isao ficou paralisado nos primeiros segundos, pela surpresa, mas depois envolveu a cintura dela e aprofundou o beijo, fazendo o que tinha vontade desde a primeira vez em que a vira.
Após certo tempo, eles separaram apenas os lábios e abriram os olhos, se encarando.
- Isso. – completou ela, receosa.
Isao sorriu, o sorriso mais bonito que ela já tinha visto brilhar no rosto do professor.
- Desculpe... eu acho. – ela falou, séria.
- Não precisa se desculpar.
- Eu sei. Mas... quero.
Os dois riram. Isao voltou a aproximar os lábios, mas ela desviou o rosto e ficou em pé. Caminhou até a janela e começou a desenrolar as faixas da mão também.
- Eu não deveria ter feito isso, Kageyama. Me desculpe. – falou sem olhá-lo.
Isao se levantou sorrindo, mas não se aproximou dela.
- É a primeira vez que me chama pelo primeiro nome...
- Desculpe. Só...
- Não se desculpe. Eu gostei. Não só de ser chamado pelo nome, se me permite dizer.
Charlie se sentiu um lixo e virou, olhando-o. Mediu bem as palavras antes de pronunciá-las.
- Eu não quero te magoar, Isao. Nem me magoar...
- Tudo bem. – ele continuava sorrindo.
- Acho que você não entendeu...
- Entendi perfeitamente. O fato de eu estar apaixonado por você não deveria ser levado em conta.
- Você... o que? – perguntou ela, surpresa demais para segurar o espanto.
- Por que a surpresa, senhorita? Achei que já tinha percebido. – ao dizer isso, ele voltou a corar.
- Eu sempre fui uma lesada para essas coisas... – e revirou os olhos. – Mais um motivo para o que aconteceu ser um erro.
- Pode ser. – ele falou apenas.
Charlie suspirou e fez menção de voltar a falar, mas ele se virou e simplesmente saiu da academia.
Não é preciso mencionar que ela não dormiu durante toda a noite.
Era domingo e Charlotte estava sentada na mesa da cozinha, enxugando louça com Penny. As duas riam e Penny jogou água na outra. Charlotte não parecia mais a mesma. Estava alegre, estava feliz.
- Penny!? – riu Charlie, enxugando o rosto molhado com as mãos.
- Deixe de ser chata, Charlotte Flynn! – fazendo pose, brincando.
Isao entrou no momento em que Penelope dizia o nome da amiga e o homem franziu o cenho.
- Quem é Charlotte Flynn? – perguntou ele, fazendo Jack, que entrara atrás, torcer o rosto.
Charlie empalideceu e o sorriso de Penny desapareceu.
- Uma... amiga... nossa. – mentiu Penelope.
Isao não acreditou e encarou Charlie.
- Ah, é?
Charlotte e ele ficaram algum tempo se encarando. Penny olhava de um para o outro e para o pai, que permanecia em silêncio. Por fim, Charlie desceu da mesa onde estava sentada e respirou fundo.
- Charlotte Flynn sou eu.
Penelope ergueu as duas sobrancelhas, sem coragem para encarar o amigo que havia enganado.
Isao ficou em silêncio, enquanto estudava as duas.
- Por que mentiu para mim?... digo, por que mentiram... – e olhou Penny, que tentou sorrir.
- Não culpe Penny. Eu pedi para que ela não falasse.
- Por quê? – ele insistiu.
Charlie suspirou, sem desviar o olhar do dele sequer uma vez.
- Eu estou morta, Isao. Ninguém pode saber que eu estou viva.
Ele estranhou, mas resolveu não perguntar mais nada.
- Acho que cheguei em má hora. – disse ele, dando às costas as mulheres.
- Não vá... por favor. – falou Charlie, sem se mover.
Isao parou e voltou a olhá-la.
- Me dê um motivo, senhorita.
Ela pensou por um momento e então falou firmemente:
- Eu gostaria de te explicar direito. Vinha pensando em contar, já tinha até comentado com Penny.
Ele a encarou e depois a Penelope, que assentiu.
Jack fez um sinal com a mão à filha e Penelope olhou para Charlie. A amiga sorriu, fazendo-a sorrir também e ela saiu em seguida, acompanhada do pai. Isao e Charlotte ficaram sozinhos. O homem a encarava com os olhos castanhos de tal forma que a fazia estremecer, então ela desviou o olhar e andou até a janela. O silêncio dele provocava um vácuo em seus ouvidos.
- Bem... – começou. – Tudo aconteceu quando eu tinha sete anos...
